Naquele tempo, a vida era diferente
rico machado
Quando minha mãe me levava no colo,
Davi Kopenawa
esses forasteiros ainda estavam muito
longe de nós. Não sabíamos nada deles.
Nossos maiores não desconfiavam que um
dia eles matariam todos nós!
Naqueles tempos a vida era diferente. A casa havia pegado fogo uns dois anos antes. Construída com materiais de construção doados e preenchida com móveis velhos, a residência soergueu-se com as mãos cansadas do trabalho voluntário dos pedreiros daquela rua, que, após o expediente formal, colocaram tijolo sobre tijolo. Durante os primeiros meses, a casa fora habitada principalmente por tristezas e lembranças, até que se soube que o filho mais velho da mãe solteira e analfabeta teria de novo um irmão. Ao contrário do que quase sempre acontece, a surpresa inicial foi devastadora para a mãe e triunfante para o, então, filho único.
Com o tempo, a notícia foi se transformando em espera e a espera em uma estranha felicidade, daquelas que não se sabe bem o que significa. De todo o modo, os dias foram se iluminando. Quando chegou o dia do aniversário da mãe, o novo filho apressado, de oito meses, nasceu. A casa, meio desajeitada e torta, mas ainda assim um lar, passou a ser habitadapor algo que não fosse as ruínas do passado.
Sequer mãe e bebê tinham saído do hospital, o pequeno teve que passar alguns dias na UTI, o médico asseverou: “Ele terá muitos problemas de pele e respiração no primeiro ano, mas se ele aguentar, vai crescer forte.” Assim foi. Sarampo, pneumonia, varicela e uma série de gripes. A cada mês de vida, a esperança se renovava. A fé, no entanto, não era uma questão de escolha. Não se pode escolher ter fé ou ser pobre. Quando se é pobre, ter fé é condição existencial.
Depois de uma série de internações e sucessivos adoecimentos, a mãe achou por bem batizar o filho, antes que morresse pagão. Com o nascido de meses ao colo, foi à Igreja e recebeu um sonoro não do pároco, sob a justificativa de que era “mãe solteira”. No caminho para a casa, aos prantos, passou em frente ao terreiro, com sua sacola de pesares e o medo de perder mais um filho. Entrou na casa. Uma senhora, de nome Vó Preta, recebeu-lhe com generosidade. A mãe pediu, então, que ela batizasse seu pequeno, afinal se a má sorte vencesse de novo, melhor que o bebê tivesse as bênçãos divinas. Vó Preta então disse que voltasse à noite, quando a sessão de umbanda iniciasse.
Mais tarde, Caboclo Cacarandi, entidade espiritual de Vó Preta, pegou a criança no colo, assoviou como cantam os pássaros e espíritos da floresta e dançou ao som dos tambores enquanto o bebê dormia tranquilo. Logo após o colocou diante do congá1, sobre um pelego de ovelha, onde ficou o resto da noite num sono profundo. Antes de encerrar a cerimônia religiosa, Cacarandi tomou a criança no colo, outra vez assoviou como quem conversa com a natureza, fez suas preces. Devolveu o bebê à mãe. Estava batizado.
Neste dia, esta pesquisa se iniciou.
Este texto é o prefácio da tese Semiofagias Canibais. O ponto de vista da alteridade a partir de uma abordagem semiósica-multinaturalista da cultura.


