Antropofagia,  Artes,  Comunicação

A força transformadora da universidade pública

rico machado

A imagem que ilustra essa postagem é um antigo silo que fica no Campus Lagoa do Sino da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, próximo à Campina do Monte Alegre, no interior de São Paulo. Na verdade, é mais que um silo, serviu, outrora, de solitária para meninos negros “desobedientes” que viveram entre os anos 1930 e idos de 1950 na antiga Fazenda Albertina, de posse da oligarca família de integralistas Rocha Miranda. Voltarei ao silo. Em 1984 o latifúndio fora dividido e a Fazenda Lagoa do Sino foi adquirida pelo premiado escritor Raduan Nassar, conhecido, sobretudo, pelo laureado Lavoura arcaica (1975). Passados 27 anos o escritor doou a fazenda para a UFSCar, com o compromisso da universidade em manter os trabalhadores da fazenda e, do ponto de vista educacional, garantir o desenvolvimento da região e formar profissionais de diferentes áreas voltadas à soberania alimentar. Em 2014 o Campus Lagoa do Sino é inaugurado.

Irmãos Integralistas

Permitam-me voltar aos anos 1930. A Fazenda Albertina tornou-se o lar de dezenas de meninos negros – este é um aspecto fundamental – vindos do Orfanato Romão Duarte, no Rio de Janeiro, então capital federal. Em 16 de novembro de 1933 nada menos que 50 meninos órfãos negros, repito, passaram à tutela de uma única pessoa. As autoridades consideraram razoável que uma única pessoa adotasse 50 órfãos para que morassem em um rincão no interior paulista. Oswaldo Rocha Miranda, um industriário paulistano, foi o tutor e responsável por cuidar das crianças. Renato Rocha Miranda, seu irmão era também industriário e mantinha relações com Alfried Krupp, Ministro da Economia de Hitler e o maior fabricante de armas na Alemanha durante o Terceiro Reich. Otávio Rocha Miranda era dono de uma construtora e sua empresa foi responsável pela construção do mais famoso bairro brasileiro, “Ipanema”, no Rio de Janeiro. Sergio é outro dos irmãos Rocha Miranda, este, juntamente com Otávio, com maior interesse nas questões agropecuárias, aviões, iates e caça. O trio de irmãos pertenceram à cúpula da Ação Integralista Brasileira, uma organização supremacista branca nacional, que colocou o Brasil como o segundo país com maior número de nazistas no globo, ficando atrás somente da Alemanha hitlerista.

Igreja da antiga Fazenda Albertina, hoje no campus Lagoa do Sino da Ufscar
Igreja da antiga Fazenda Albertina, hoje no campus Lagoa do Sino da Ufscar

Infância roubada

Pois, justamente, a Fazenda Albertina se tornou no início dos anos 1930 uma base da Ação Integralista. Chocante talvez seja pouco para descrever o que significa o Estado brasileiro consentir a adoção de 50 crianças negras para uma família de integralistas. Em algum momento, que me escapa precisamente a data, o gigantesco latifúndio foi dividido em duas propriedades, Albertina e Cruzeiro do Sul. Façamos um corte seco e aterrissamos em 1991. Um caseiro da parte da antiga fazenda que passou a se chamar Cruzeiro do Sul, ao tratar os porcos encontrou um tijolo maciço com a suástica nazista. Essa história é contada em detalhes no Documentário Menino 23 (2017), que resulta, também, do trabalho de pesquisa e tese de Sydney Aguilar Filho, que no final da década de 1990, ao dar uma aula de história para estudantes da rede básica da região, ouviu de uma aluna que na propriedade da família dela havia tijolos com esta inscrição.

Há três personagens centrais no documentário: Aloízio Silva (o “Menino 23”), Argemiro Santos (o “Marujo”) e José Alves de Almeida (o “Dois”). Os dois primeiros sofreram toda a sorte de abusos, violências e torturas. O silo, a que fiz referência na primeira linha deste texto, foi usado como solitária para eles. Aloízio conta que diversas vezes foi deixado lá por horas, mais de um dia. Argemiro lembra dos castigos com vara de marmelo a que eram submetidos, deixando marcas e feridas nas costas. A palmatória era outro recurso de tortura usado com frequência. José Alves, o “Dois”, fora acolhido pela família Rocha Miranda e morava, digamos assim, na “casa grande”. Teve acesso à educação, andava com os filhos de Renato Rocha Miranda, e assim viveu durante décadas. Casou, teve filhos. O acesso à família dos donos da fazenda não lhe rendeu nenhuma herança, tampouco qualquer salário durante todo o tempo em que esteve na propriedade. Aliás, nenhum dos 50 meninos levados do Rio de Janeiro pela família Rocha Miranda, mesmo sendo filhos adotivos do ponto de vista legal, tiveram herança alguma, senão as marcas na pele e na memória dos anos vividos baixo tortura e trabalho forçado.

Um mundo com muitos mundos

Façamos outro corte seco. Aterrissamos no século XXI. O projeto político que se instaurou no Brasil entre os anos de 2016 e 2022 trouxe novamente à tona, como se fosse algo normal, como se fosse uma “opinião”, o discurso contra as universidades públicas. Um discurso feroz, racista, misógino, classista. As universidades públicas passaram a ocupar a boca da mais variada sorte de desqualificados. Desde empresários sonegadores de impostos a políticos extremistas de direita, passando pelo puro suco de uma classe média que não se reconhece como classe trabalhadora e tampouco conhece a universidade pública, um lugar radicalmente plural onde tem gente de todos os espectros políticos, inclusive gente avessa a qualquer ideologia.

Pois os pesquisadores das universidades públicas no Brasil, a despeito da redução de investimentos na educação – com a pressão de cortes de gastos por parte do Congresso – continuam sendo a elite da pesquisa científica no Brasil. Em rankings globais de avaliação do ensino superior nenhuma universidade privada brasileira figura entre as melhores universidades do país, a despeito de alguns conglomerados educacionais abocanharem fatias enormes do orçamento do Prouni. A acusação tacanha, rasteira e pobre dos detratores da universidade pública revelam um aspecto indelével da burguesia brasileira (não a chamemos de elite, pois como ensinou Emicida, elite é algo positivo): ela não está disposta a ceder em nada. Todo avanço social e educacional público no Brasil resulta da construção de políticas públicas voltadas aos desfavorecidos à revelia de qualquer concessão das classes dominantes.

Salas da aula no campus Lagos do Sino da UFSCar
Salas da aula no campus Lagos do Sino da UFSCar
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Não deixa de ser estarrecedor que na primeira semana de junho de 2026 o Senado nacional tenha aprovado, em uma votação simbólica e silenciosa de menos de dois minutos, a anulação da norma que autorizava meninas menores de 14 anos a realizarem aborto legal em caso de estupro. Na prática, o Projeto de Decreto Legislativo – chamado de “PDL dos pedófilos” – obriga que crianças gestem e deem à luz os filhos de estupradores. Na mesma semana, o mesmo Senado não deu andamento às votações da redução da escala 6×1 aprovada por ampla maioria na Câmara. Os exemplos anedóticos (mas nem tanto) ilustram como no Brasil os poderosos nunca arredaram o pé de seus privilégios, jamais estando dispostos a ceder em nada. É essa mesma gente que vocifera contra o ensino público superior no Brasil.

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Oca localizada no Campus Lagoa do Sino da UFSCar
Oca localizada no Campus Lagoa do Sino da UFSCar

Voltemos ao silo. Hoje, o silo que serviu de solitária se ressignifica com grafismos indígenas no campus da UFSCar Lagoa do Sino. Rezas e benzimentos foram feitos no local para que a ressignificação não fosse meramente estética, mas também espiritual. O campus abriga hoje milhares de estudantes, inclusive indígenas. O espaço que antes fora ocupado por pessoas e valores associados à tortura, à escravidão e ao nazismo à brasileira, hoje é um local de construção humanística, voltado à formação integral de pessoas de todas as classes, gêneros, etnias e credos. E isso é intolerável para quem jamais foi capaz de ver o rosto do outro. É intolerável para quem o único projeto de mundo possível é baseado na exploração dos desfavorecidos. A universidade pública no Brasil é, apesar de suas limitações e desafios, a mais tropicalista das instituições, onde gostar de gostar – na definição de Gilberto Gil – é o motor que movimenta milhares de cientistas (onde na falta de recursos financeiros sobra disposição). Os detratores do ensino superior público não suportam a mínima faísca do conhecimento e por isso vociferam em favor das sombras, pastoreiam os desavisados em uma marcha de retorno à caverna. A universidade pública, por sua vez, continua sendo um dos mais privilegiados lugares onde o lema zapatista – ainda que inconscientemente – encontra um terreno fértil: “Um mundo onde caibam muitos mundos”.

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