Até logo, UFOB!
Eu sabia que esse momento ia chegar. Sabia também que estaria emocionado, como estou agora escrevendo e como, presumo, será quando lerei essa carta. É muito duro dizer adeus. A UFOB é muito importante para mim. Sempre será. E não tô dizendo que aqui é perfeito. No fundo, olhando de perto, nenhum lugar é. Mas a UFOB mudou a minha vida. Mudou para melhor. Já sinto, agora, saudade de muita gente. Sobretudo dos estudantes. Vocês e outros que passaram pela minha sala de aula, formaram-me como professor e como um ser humano melhor, apesar de todos meus defeitos. Agora vou para a UFSCar mais seguro, confiante e, desejo, cometendo menos erros.
Por mais que saibamos que a vida é feita de ciclos, que, como aprendemos na sabedoria budista, a única coisa permanente é a impermanência das coisas, é difícil dizer adeus. Vocês, baianos, têm uma expressão que eu gosto muito. “Jogue duro!”. E é isso mesmo, mas não é fácil (e nem vocês prometeram que seria). Eu mesmo, nas formaturas, disse isso, mas de um jeito bem menos original, falando apenas “tenham coragem”. Mas jogue duro é melhor, tem mais personalidade, tem mais a cara dessa gente que eu aprendi a amar. Muitas vezes falei em sala de aula que eu só tolerei a saudade de Catarina porque meu trabalho envolvia o contato diário com vocês. Os abraços, as conversas, os choros e até mesmo as brigas e puxões de orelha. É disso que se trata se viver.
Já que estamos em uma despedida e que não temos como escapar, me permitam um desvio. O Gregório Duvivier, do Porta dos Fundos, tem um trecho muito belo em seu espetáculo Céu da Língua. Ele fala, justamente, de despedida e escreve assim:
Toda palavra merece uma despedida. Até porque a DESPEDIDA é uma palavra nossa. Que a gente não dá muito valor. Em inglês eles falam say goodbye. Ou decir adiós. Dire au revoir. Em muitas línguas se despedir é dizer tchau. A despedida não é dizer adeus, mas é a cerimônia do adeus. Só uma língua que inventou a saudade poderia ter inventado a despedida. Se a saudade é a presença de uma ausência, a despedida é o prenúncio dessa ausência. Nos despedimos porque sabemos que vamos sentir saudades, e a despedida vai ajudar na saudade futura. Se despedir é tornar presente aquilo que não estará, por isso a gente gosta de se despedir e passa a vida se despedindo. Tem a saída à francesa, que é sair sem se despedir. E a saída à brasileira, que é se despedir sem sair.
Gregório Duvivier, Céu da Língua
Então seguindo o que há de melhor em nossa tradição brasileira, me despeço sem ir embora. Então pra me despedir – sem ir embora – quero agradecer. Quero agradecer a duas pessoas que se encantaram há muito tempo, mas que seguem sendo importantes na minha vida: minha mãe e meu irmão. Nos dias mais sombrios que vivi, eles sempre me disseram que eu tinha que estudar se quisesse ser alguém na vida. Não foi fácil. Não foi uma, nem duas vezes que a barriga deles roncou para que eu jamais passasse fome. Olho para trás e nem acredito que hoje sou professor e que posso formar outras pessoas. Posso dizer com autoridade: estudem, a educação muda vidas! Apesar de todos os desafios, vivemos hoje em um país livre, democrático e menos desigual. A UFOB é um espaço onde podemos divergir sem odiar, mas, principalmente, um lugar onde muita gente excluída tem o seu lugar para existir e amar sem que isso escandalize ninguém, afinal, como diria o Drummond, “que pode uma criatura, senão entre criaturas amar?”.
Quero agradecer a todos os colegas. Não faço distinção. Servidores, técnicos, terceirizados. Guardo todos com muito carinho no meu coração. Em todos os dias que pisei na UFOB – triste ou feliz – procurei retribuir a acolhida de todos, de todos. Não nominarei ninguém, porque cometerei a injustiça de esquecer alguém. Não há nada maior no mundo do que a possibilidade de viver e encontrar pessoas. Eu só tenho a agradecer imensamente e pedir desculpas por quando falhei, não foi por mal.
Por fim, concluo agradecendo às pessoas mais importantes dessa universidade: os estudantes. Nada disso teria sentido sem vocês. Nada. Às vezes vocês podem se sentir frágeis, inseguros, podem ter medo do que virá, mas saibam que vocês são os pilares mais fortes que me mantiveram de pé nos dias mais difíceis que vivi aqui. E vivemos de tudo. Muitos momentos felizes, e outros, poucos é verdade, muito tristes. Tô falando aqui das partidas, algumas delas de pessoas que jamais poderemos rever até que os encantados sejamos nós. É muito triste me despedir de vocês, não vou mentir. A vida, porém, nos exige escolhas. Eu tenho uma guriazinha para cuidar e estar mais perto. Isso será bom, afinal nem tudo nessa despedida será ruim. Levo cada estudante no meu coração. Cada memória que construí aqui guardo no espaço mais bonito da galeria da minha vida.
Eu queria poder dizer mais, mas não tenho condições, nem físicas nem emocionais. Então encerro com um poema do Drummond. Antes, porém, como última palavra autoral digo a vocês: não temam o futuro, não temam o amor, não temam nada que ameace vocês. Sonhem, amem e, como vocês me ensinaram, “joguem duro!”.
Ao poema, então, porque já falei demais. Ele se chama Memória.
Memória
(Carlos Drummond de Andrade)
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Muito obrigado por tudo! Amo vocês!


